Comum XIV

Lc 10, 1-12.17-20

Naquele tempo,
designou o Senhor setenta e dois discípulos
e enviou-os dois a dois à sua frente,
a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.
E dizia-lhes:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.

Pedi ao dono da seara
que mande trabalhadores para a sua seara.
Ide: Eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos.

Não leveis bolsa nem alforge nem sandálias,
nem vos demoreis a saudar alguém pelo caminho.

Quando entrardes nalguma casa,
dizei primeiro: ‘Paz a esta casa’.

E se lá houver gente de paz,
a vossa paz repousará sobre eles;
senão, ficará convosco.
Ficai nessa casa, comei e bebei do que tiverem,
que o trabalhador merece o seu salário.
Não andeis de casa em casa.
Quando entrardes nalguma cidade e vos receberem,
comei do que vos servirem,
curai os enfermos que nela houver
e dizei-lhes: ‘Está perto de vós o reino de Deus’.
Mas quando entrardes nalguma cidade e não vos receberem,
saí à praça pública e dizei:
‘Até o pó da vossa cidade que se pegou aos nossos pés
sacudimos para vós.
No entanto, ficai sabendo:
Está perto o reino de Deus’.
Eu vos digo:
Haverá mais tolerância, naquele dia, para Sodoma
do que para essa cidade».
Os setenta e dois discípulos voltaram cheios de alegria, dizendo:

«Senhor, até os demónios nos obedeciam em teu nome».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu via Satanás cair do céu como um relâmpago.
Dei-vos o poder de pisar serpentes e escorpiões
e dominar toda a força do inimigo;
nada poderá causar-vos dano.
Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem;

alegrai-vos antes
porque os vossos nomes estão escritos nos Céus».

 

A missão desenvolve-se na cidade. Esta é o espaço do encontro, da criação de cultura, onde a história se faz e a vida acontece. É aqui que toda uma vida nova deverá acontecer, que será edificada, levantando-se a Igreja. A missão é simples e para esta missão só vai quem é chamado, porque não é obra própria, mas recebida. Aqui começa a vitória, uma atitude de humildade, despojada de toda arrogância ou orgulho, de quem se sabe nas mãos de Deus. Esta é a maior causa de alegria, não o que se faz, mas o sabermos que estamos nas mãos de Deus. quando assim é, a paz já não será só o findar dos conflitos, mas a plenitude de vida que nos é dada e que trazemos ao quem encontramos, seja lobo ou cordeiro.

 

Um nome novo

Neste mundo em que todos desejam vencer e nas vitórias alcançadas ganhar um nome, esquecemos os nomes que nada vencem a não ser a si mesmos, quando não pretendem ganhar aos outros, mas ganharem-se para os outros. Quanto maior for o nome que desejamos auferir, menos pessoas nos terão para si. Jesus deixou que todos olhassem para si e em si só encontrassem o derrotado, sem nome por escrito, mas adscrito à causa da condenação. Talvez fosse interessante refletir nas palavras de Kierkegaard: “no mundo ninguém alcança vitórias sozinho e ninguém sai vitorioso sem ter derrotado um inimigo”. O único inimigo que possuímos é aquele que não nos deixa alcançar a vitória e esse é o da nossa aspiração de querer vencer sozinhos ou, dito segundo os critérios da pseudoliberdade, o fazer-se a si mesmo, numa palavra só, o individualismo. Vivemos o tempo dos prémios e de tantos outros concursos que galardoam os feitos do “eu” de cada um. Contudo, quanto mais estatuetas temos para distribuir por aqueles que se fazem vitoriosos, mais derrotados colecionamos. Enquanto não nos dispormos a vencer a ansia de colecionar os troféus do nosso nome, ainda não vencemos nada, saímos sempre derrotados. Renunciar a um “nome”, talvez seja a única vitória, foi esta a de Jesus.

Quando Jesus questiona os Seus discípulos sobre o que as gentes dizem sobre Ele e depois o que eles próprios conjecturam que Ele seja, é a nós que o faz agora. Talvez seja difícil responder à questão de dizer quem Ele é. Sentimos alguma dificuldade em atribuir um nome que consiga dizer tudo aquilo que Ele foi e é agora para nós. Mas não é assim com tudo o resto. Com muita facilidade nos dispomos a denominar as coisas ou a nomear, é um desiderato nosso renomear tudo e todos com um nome, como se fosse uma remuneração de cada encontro nosso. Gostamos de catalogar e de rotular os outros. Contudo, Jesus não pretendeu ter nome e sem nome ficou quando na cruz morreu. Jesus morreu sem nome e Seu foi o nome que nos deu. “O Nome de Jesus foi dado a todos nós e agora o Seu nome é o nosso, um nome novo em Deus”.

“O nosso nome será um novo nome de Jesus” se aceitarmos o desafio a segui-lo, tomando a cruz de cada dia, renunciando a ter um nome, como Ele, na cruz. Sim, seguindo-o até à Cruz e a cada dia, aprendendo a dizer como o centurião disse de Jesus: “Este era verdadeiramente o Filho de Deus”. Seguir Jesus passa por aprender a ser filho, voltar a ser criança, a verdadeira criança evangélica, aquela que renunciou a ter o seu mundo num nome e um nome no mundo, para se ter em Deus. No tempo do extremo individualismo, o nome é o único mundo que resta a cada um, por isso há que vencer para ter um nome, mas este fica tão estreito que nos faz ser uma ilha. Aqui passamos a sofrer de insularidade, o nosso nome fica desabitado por falta de ligações a todos que o digam. Parece uma contradição, desejamos tanto que os outros conheçam o nome do nosso “eu”, que nos isolamos até mais ninguém nos conhecer. Esta é a desgraça do mundo moderno, deixamo-nos de conhecer, uns aos outros, claro, mas, sobretudo, cada um a si próprio. O desafio que Jesus lança a Pedro e a cada um de nós é de ser mais do que uma ilha ou muito mais do que um planeta. Para Paulo já não há gregos nem judeus, mas todos em Cristo são um só, sem deixarem de serem quem são. Estamos chamados a ser um universo de nomes, os nomes de todos aqueles que levamos gravados no coração, contudo estes só ficarão gravados quando tomarmos a cruz de os amar. Estes nomes serão a nossa salvação, salvar-nos-ão de vivermos como ilhas desertas.

A oração cristã tem como pressuposto ganhar um nome, o nome que Cristo nos dá para nos fazer cristãos. A oração só é possível, quando renunciarmos ao nosso nome, para clamarmos com o Espírito: “Abba”, Pai. Toda a vida cristã é isto mesmo, conhecer-se filho, não uma estrela qualquer, isolada, no céu, mas filho muito amado. A renúncia ao nosso nome permite a aprendizagem, do discipulado, de filho chamado a ser como o Pai. Só será como o Pai, quem aprender a ser filho, porque só quem se aceita como filho é que está pronto a ser pai. “Há um novo nome a receber e que nos será entregue numa pedra branca e esse nome só será revelado a quem a recebe”.

Um nome, uma vida

Lc 9, 18-24

Um dia, Jesus orava sozinho,
estando com Ele apenas os discípulos.
Então perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?».
Eles responderam:
«Uns, dizem que és João Baptista; outros, que és Elias;
e outros, que és um dos antigos profetas que ressuscitou».

Disse-lhes Jesus:
«E vós, quem dizeis que Eu sou?».
Pedro tomou a palavra e respondeu:
«És o Messias de Deus».
Ele, porém, proibiu-lhes severamente
de o dizerem fosse a quem fosse
e acrescentou:
«O Filho do homem tem de sofrer (pathein = sofrer) muito,
ser rejeitado (‘apodokimazw = declarar inábil) pelos anciãos,
pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas;
tem de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia».
Depois, dirigindo-Se a todos, disse:
«Se alguém quiser vir comigo,
renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la;
mas quem perder a sua vida por minha causa,
salvá-la-á».

 

Jesus não faz retórica, nem nas questões que coloca. Nada fica numa simples teoria, por mais belo que seja o pensamento. O Seu pensamento entra na vida pela porta que dá acesso direto à realidade, o sofrimento, o sacrifício. Segui-l’O implica renunciar a ficar preso a si, ao seu “eu” doentio e mesquinho, possessivo e dominar, para ganhar um “eu” vivente, capaz de si e de a si mesmo entregar.

Muitos cuidaram de responder à questão que Jesus lança aos discípulos. Agora é a nossa vez e não podemos esquecer que para o fazer, precisamos de chegar ao inábil. Deixar o que sustenta o nosso “eu” para nos alimentarmos só de Deus. este é o único sofrimento que tem justificação, porque é único que salva a vida.

o salário de uma vida

Lc 7,36-8,3

 

Naquele tempo,
um fariseu convidou Jesus para comer com ele.
Jesus entrou em casa do fariseu e tomou lugar à mesa.

Então, uma mulher – uma pecadora que vivia na cidade –

ao saber (‘epignousa = tendo observado) que Ele estava à mesa em casa do fariseu,
trouxe um vaso de alabastro com perfume;
pôs-se atrás de Jesus e, chorando muito,
banhava-Lhe (brekw = molhar, chover) os pés com as lágrimas
e enxugava-Lhos com os cabelos,
beijava-os e ungia-os com o perfume.

Ao ver isto, o fariseu que tinha convidado Jesus pensou consigo:

«Se este homem fosse profeta,
saberia que a mulher que O toca é uma pecadora».
Jesus tomou a palavra e disse-lhe:

«Simão, tenho uma coisa a dizer-te».
Ele respondeu: «Fala, Mestre».
Jesus continuou:
«Certo credor tinha dois devedores:
um devia-lhe quinhentos denários e o outro cinquenta.

Como não tinham com que pagar, perdoou a ambos.

Qual deles ficará mais seu amigo?».

Respondeu Simão:
«Aquele suponho (‘upolambanw = tomar sobre os ombros; interpretar, presumir) eu a quem mais perdoou».

Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem».
E voltando-Se para a mulher, disse a Simão:
«Vês esta mulher?
Entrei em tua casa e não Me deste água para os pés;
mas ela banhou-Me os pés com as lágrimas
e enxugou-os com os cabelos.
Não Me deste o ósculo;
mas ela, desde que entrei, não cessou de beijar-Me os pés.

Não Me derramaste óleo na cabeça;
mas ela ungiu-Me os pés com perfume.
Por isso te digo:
São-lhe perdoados os seus muitos pecados,
porque muito amou;
mas aquele a quem pouco se perdoa,
pouco ama».
Depois disse à mulher:
«Os teus pecados estão perdoados».
Então os convivas (sunanakeímenoi = os recostados à mesa) começaram a dizer entre si:
«Quem é este homem, que até perdoa os pecados?».
Mas Jesus disse à mulher:
«A tua fé te salvou. Vai em paz».

Depois disso, Jesus ia caminhando por cidades e aldeias,

a pregar e a anunciar a Boa Nova do reino de Deus.

Acompanhavam-n’O os Doze,
bem como algumas mulheres que tinham sido curadas

de espíritos malignos e de enfermidades.
Eram Maria, chamada Madalena,
de quem tinham saído sete demónios,
Joana, mulher de Cusa, administrador de Herodes,

Susana e muitas outras,
que serviam (diakoneu = servir, hospitalidade e cuidado da casa) Jesus com os seus bens.

 

Há um outro jeito de abrir as porta da misericórdia de Deus, ao estilo da mulher do Evangelho, com reconhecimento dos seus pecados. Mas mais uma vez poder-se-á afirmar que a humildade abre sempre o coração de Deus.

Uma mulher, sem nome, sem fama, nem riqueza, mas aplica tudo o que tem e todo o seu amor para agradecer o perdão, a recuperação de si mesma. Este dispor de si para confiar em Jesus, implica o amor e o amor implica dispor de si para o seguir e segui-lo é servir a casa, a comunidade.

Um grito que abre a porta de Deus

A misericórdia é uma porta que se abre em nós sem sabemos quem a abriu e como se abre um movimento tão profundo. Uma porta que se abre e que possibilita que nos encontremos, cada um consigo mesmo, no fio mais dilacerante da consciência humana, que faz indeclinável o mandamento do amor: só tu o podes fazer e nada pode ser feito se não for na urgência de amar mais, para mais vida abrir nos dias do irmão. Neste ano jubilar somos convidados a abrir de par em par as portas da misericórdia e a inaugurar uma outra de forma de estar diante do outro. O convite é simples, fazer da vida uma porta de misericórdia, permanentemente aberta para que todos os outros entrem no nosso coração, como os gritos dilacerantes da viúva do evangelho entram no de Jesus pela perda do seu único filho.

A porta de Naím é uma das portas de misericórdia do Evangelho. Aqui se encontram dois cortejos: um fúnebre, que sai da cidade, e outro de peregrinação, que entra na cidade. O primeiro traz consigo os gritos da desgraça da viúva que sem filhos ficaria inteiramente condenada à miséria. Este cortejo traz aos ombros, no ataúde, o defunto, um jovem igual a tantos outros, uma janela de luz na vida dos seus pais. Nos seus lamentos o cortejo fúnebre traz a vida na sua inevitável romagem para morte e assim também tantas das nossas conversas que abordam a morte dos sonhos dos jovens que não têm família, feridos ainda crianças ou adolescentes, pela falta de futuro, sem estudos ou pela falta de emprego, mesmo com os melhores estudos. Não faltam jovens trazidos aos ombros, porque se encontram sem vida, sem esperança, sem trabalho, sem família…

O outro cortejo que se dirige para Naím traz Jesus. Ao passar as portas a nossa vida, Jesus abre uma outra possibilidade e a chave com que se abre esta porta não está nas nossas mãos, mas no olhar com que Jesus fixa o Seu coração no nosso. Assim foi a forma de transformar naquela hora as portas da cidade de Naím em portas da misericórdia. Não só por esta vez, mas em tantas outras, Jesus olha e comove-se, move-se prontamente com o coração para a miséria daqueles que encontra pelo caminho. Jesus enche-se de compaixão com os gritos da viúva que agora desfilhada, está condenada a viver na miséria além de toda a dor e solidão. Jesus comoveu-se e compadeceu-se. Isto é o Evangelho, um Deus que se comove com as nossas misérias e partilha connosco a nossa paixão. A grande notícia que Jesus traz é assim tão simples, não são precisas outras chaves para abrir o coração de Deus, basta deixar Deus ser Deus. Basta a humildade da nossa parte, reconhecer a luta que vivemos para subir acima de nós próprios. É a isto chamamos de progresso. Neste progresso do Self há uma miopia, porque só se consegue ver a si próprio e outro é sempre distorcido.

Os progressos pelos quais se pautam o nosso muito são de uma policromia sem fim. Não faltam metas a tingir, desafios a cumprir e em todos há uma espécie de endeusamento da pessoa humana. Paulo também assim viveu, entregou-se à busca de si mesmo. Paulo sabe o que é estar na linha da frente, procurar os melhores resultados e nisto conhece o vazio, nada alcança, termina pelo chão e no chão reconhece os errados caminhos que cincavam pela loucura do homem de se pensar mais pelo que consegue do que pelo que recebe. Paulo sabia como se fecham as portas, mas não conhecia o amor que a todas abre. Só quando cai pelo chão e se descobre cego pela demência de se procurar a si, é que se deixou encontrar pelo amor que o cura de toda a miopia. Paulo sabe da graça que o alcançou e o ultrapassou em toda a sua loucura porque dele se lembrou, libertando-o da angustia de se salvar a si próprio, para se deixar amar e já não mais lutar para ser o primeiro, mas apenas para isso mesmo, para se deixar amar no primeiro amor que a todos cria e recria no amor.

A graça que alcançou Paulo não foi uma energia difusa para que ele reavivasse o seu ideal num momento de menor fulgor, mas o amor de Deus que lhe tocou no íntimo do seu ser e que capitalizou tudo o que era para uma outra forma de ser, de estar e de fazer. A graça que o alcançou abriu n’ele a porta da misericórdia. Paulo foi envolvido pela graça de Deus e essa graça é que o entusiasmou para uma verdadeira missionação. Já não segundo o que pensava, mas segundo o amor que Deus fez derramar sobre ele. Sem esse amor toda a nossa vida não passa disso mesmo, um grito permanente como da mulher às portas de Naím ou como Edvard Munch tão bem plasmou na tela – um calafrio permanente de uma morte que se anuncia em cada encontro e nos fazer experimentar a morte de cada momento. Só em Deus é que há vida e vida suficiente para que a vida seja vida.

Quantas portas há para abrir nossos dias? Para nós cristãos esta é a arte de viver como Cristo nos ensinou, mais ainda, de passar de um cortejo para o outro. Não apenas para trocar por outro melhor, mas porque em nós também se abriram as portas da misericórdia e passamos arriscar tudo nessa misericórdia, a única capaz de abrir todos os corações. Há tantos a fazer levantar. Muitos são os levados aos ombros da miséria, da dependência ou doença e nós que entramos no corteja da misericórdia de Jesus, deixemos que chegue ao nosso coração o choro e os gritos dilacerantes dos que assim vivem. Há muitos outros que morreram porque abandonaram a sua fé, deixaram o cortejo de Jesus e passaram para o cortejo do mundo, onde pensam ganhar a vida, e deixando a sua mãe Igreja em prantos ao vê-los partir na morte. Também para estes se dirige o cortejo de Jesus. Esta igreja, que chora os seus filhos mortos na desesperança ou na descrença, precisa que nela se fixe o olhar de Jesus, para lhe devolver vivos, aqueles que pareciam mortos. Só assim será Igreja do cortejo da misericórdia, abrindo as portas da vida.

um grito de mãe

Lc 7, 11-17

Naquele tempo,
dirigia-Se Jesus para uma cidade chamada Naim;
iam com Ele os seus discípulos e uma grande multidão.

Quando chegou à porta da cidade,
levavam um defunto a sepultar,
filho único de sua mãe, que era viúva.
Vinha com ela muita gente da cidade.
Ao vê-la, o Senhor compadeceu-Se (esplagkniste = voltaram-se as entranhas) dela e disse-lhe:

«Não chores (klaíei = gritar)».
Jesus aproximou-Se e tocou no caixão;
e os que o transportavam pararam.
Disse Jesus:
«Jovem, Eu te ordeno: levanta-te».
O morto sentou-se (anakathise = sentou-se; incorporou, ganhou corpo) e começou a falar;
e Jesus entregou-o à sua mãe.
Todos se encheram de temor
e davam glória a Deus, dizendo:
«Apareceu no meio de nós um grande profeta;
Deus visitou o seu povo».
E a fama deste acontecimento
espalhou-se por toda a Judeia e pelas regiões vizinhas.

 

Um imensa desgraça comove as entranhas de Jesus. Os gritos da viúva ferem até ao coração, não deixando ninguém indiferente, por isso a cidade sai em  cortejo fúnebre. Mas eis que surge alguém diferente, alguém que é capaz de dar corpo, intensidade, ao amor, e este é Jesus. É a este Jesus que as mães podem recorrer, porque os seus gritos são escutados no íntimo do Seu coração. Para a viúva, o filho vivo seria a possibilidade de sobrevivência, mas dado por Jesus, será vida em abundância, “en-graçada”.

São muitos os filhos mortos que suas mães gritam por alguém que os levante e os devolva à vida em comunidade, em família e a si próprios.

Amor na fé ou fé no amor

A nossa semana foi intensa, os dias foram marcados por celebrações que nos ensinaram a olhar a geografia da vida de uma forma completamente diferente. Nestes dias tivemos a abertura das comemorações do centenário da nossa Igreja e a celebração e procissão do Corpo de Deus. Estamos habituados a pensar nos espaços que percorremos para nos encontramos com Deus e nestes dias, experimentamos, ao jeito do amor, como Deus nos encontra para percorrer os espaços da nossa vida. O jeito do amor é assim mesmo, não conhece horas ou momentos oportunos para se encontrar com aqueles que ama, muito menos hábitos ou rotinas, rituais ou etiquetas. O amor só tem um jeito de amar, ama, nem que seja preciso viver como um enjeitado para chegar a todos aqueles que ama. Como foi bela a procissão que realizamos pelas ruas da nossa cidade, onde tantos fazem cruzar a sua vida com o veraneio com a pressão do quotidiano ou com o descanso dominical com as compras e raramente se deixam entrecruzar com Deus. Por isso, o mais belo de tudo, foi este gesto de amor divino, Deus que se dá a nós, deixando-se entre nós na hóstia consagrada, na delonga do oferecimento permanente a nós, e deu-se a cada um que pelas ruas se cruzaram connosco e a cada um que integrou o cortejo procissional. A estética métrica da cidade alterou-se e deixou-nos uma outra, agora feita do encontro com a graça de Deus e já não a dos meros cruzamentos.

O desafio agora é continuar, porque Deus está sempre a passar e por onde Deus passa a geografia passa a ser outra, porque passamos do simples aí estar para um estar na intensidade do amor que passa sempre e passa para que os dias não se deixem no vazio de nada passarem. Reparemos no centurião do Evangelho, pagão de origem, mas por onde o amor passava com intensidade, porque para além de amar o seu servo, amava aquele povo com quem vivia, tendo-lhes construído a Sinagoga, casa por onde passavam os seus momentos de oração. O programa do amor não tem calendário nem agenda muito organizada, o amor deixa-se levar pelo amor, o amor conduz ao amor e quem no amor vive apenas vive o que o amor chama a viver. Talvez esteja aqui a solução para que o nosso passar pelas ruas da vida desta cidade faça da sua geografia algo diferente. Assim, as nossas ruas não serão apenas lugares de passagem, mas espaços de oração. O centurião tinha uma geografia muito específica para a oração, o amor. Só assim também é que a nossa igreja não ficará só confinada a esta edifício, a Igreja, da qual celebramos o seu centenário, nem retida na quarto do íntimo privado de cada um. Também a nossa oração não estará circunscrita àqueles momentos breves em que nos desligamos de tudo e de todos para num instante ligarmos o interruptor que nos conecta com o Divino.

O ser Igreja ao estilo de Jesus é viver neste passar que tudo transforma com a sua passagem e isto só é possível se vivermos numa oração ininterrupta, se toda a nossa vida for expressão do amor com quem vivemos. A relação com o amor para nós não é um ato pontual, é a nossa fé. Jesus ligou de tal forma a fé no amor e o amor na fé, que levou São João a dizer-nos que “Deus é amor”. Jesus não precisou de ir a casa do centurião, apenas do amor do centurião e da sua fé. Nós também só precisamos deste amor que aqui nos traz à Igreja para nos encontramos com Aquele que sabemos que nos ama mesmo antes de o procurarmos, para viver com fé naquele amor que faz diferente todos os dias. Este é o Evangelho que precisa de ser levado à nossa vida, um evangelho que faz cada um de nós a grande notícia de Deus para os homens. A mais bela notícia que precisamos de levar por todo o mundo é simples, é do amor louco de Deus por cada um, pois cada um mereceu a morte de Jesus. Quem no amor vive, mais do que anunciar o evangelho, é evangelho para todos os outros.

Fé no amor

Lc 7, 1-10

Um centurião tinha um servo a quem estimava muito

e que estava doente, quase a morrer.
Tendo ouvido falar de Jesus,
enviou-Lhe alguns anciãos dos judeus

para Lhe pedir que fosse salvar aquele servo.

Quando chegaram à presença de Jesus,
os anciãos suplicaram-Lhe insistentemente:

«Ele é digno de que lho concedas,

pois estima (‘agapã = ama) a nossa gente
e foi ele que nos construiu a sinagoga».
Jesus acompanhou-os.
Já não estava longe da casa,
quando o centurião Lhe mandou dizer por uns amigos:

«Não Te incomodes, Senhor,
pois não mereço (‘ikanos = apto); suficiente, satisfatório, digno) que entres em minha casa,
nem me julguei digno de ir ter contigo.
Mas diz uma palavra
e o meu servo será curado.
Porque também eu, que sou um subalterno,
tenho soldados sob as minhas ordens.
Digo a um: ‘Vai’ e ele vai,
e a outro: ‘Vem’ e ele vem,
e ao meu servo: ‘Faz isto’ e ele faz».
Ao ouvir estas palavras,
Jesus sentiu admiração por ele
e, voltando-se para a multidão que O seguia, exclamou:

«Digo-vos que nem mesmo em Israel
encontrei tão grande fé».
Ao regressarem a casa,
os enviados encontraram o servo de perfeita saúde.

 

Numa atitude de imensa humildade, ativada pelo amor, que nutria por aquele povo e pelo seu servo, o centurião faz uma profissão de fé, colocando-se inteiramente nas mãos de Jesus. O Centurião sabe o que é não ter vontade, mas também sabe da vontade do amor, por isso confia naquele Jesus, de quem ouve o quanto tem amado. O amor não obriga o outro, quem no amor vive, sabe que pode confiar no amor. Este é suficiente para as nossas insuficiências.

Um beijo

Jo 20, 19-23

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana,

estando fechadas as portas da casa
onde os discípulos se encontravam,
com medo dos judeus,

veio Jesus, apresentou-Se no meio deles e disse-lhes:
«A paz (eirene = paz, mas em hebraico será a shalom, que plenitude de vida) esteja convosco».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado.
Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor.

Jesus disse-lhes de novo:

«A paz esteja convosco.
Assim como o Pai Me enviou (apestalken = ser enviado),
também Eu vos envio a vós».
Dito isto, soprou (enefysisen = respirar; soprar) sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo:
àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados;

e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos».

 

Quando um beijo faz tudo novo no coração, a vida enche-se de aventura e tudo passa a ser novo na correria dos ventos que levam palavras e mãos para aquecer os ossos que se sentem perdidos. Jesus é o beijo de Deus à humanidade e em Jesus cada um é beijo pelo amor imenso de Deus que nos desperta para uma vida intensa e não há maior intensidade do que levar o perdão, enxugar as lágrimas, encontrar os corações abandonados para neles deixar o mais belo tesouro, a paz.

“sem” Céu?

Lc 24, 46-53

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Está escrito que o Messias havia de sofrer
e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia
e que havia de ser pregado em seu nome
o arrependimento e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso.
Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai.

Por isso, permanecei na cidade,
até que sejais revestidos com a força do alto».
Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia
e, erguendo as mãos, abençoou-os.
Enquanto os abençoava,
afastou-Se deles e foi elevado ao Céu.
Eles prostraram-se diante de Jesus,
e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria.
E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.

 

Este é o tempo da bênção. Somos mulheres e homens que transportam a bênção de Deus. Bom é ouvir o outro a dizer, és uma bênção para mim. O Senhor continua presente entre nós, fazendo-nos uma bênção para os nossos irmãos. Ele está nos Céus sem ter deixado a terra, antes pelo contrário, mais presente do antes, porque agora em todos e para todos. Entrar nos Céus não é um retirar-se da história dos homens, mas ser a presença que da sentido a todo o nosso caminhar. Este é o tempo da criatividade, de caminho sempre novo na ânsia de estar com o Senhor abençoando a vida de todos os nossos irmãos.