Quaresma V

Jo 11, 1-45

 

Naquele tempo,
estava doente certo homem, Lázaro de Betânia,
aldeia de Marta e de Maria, sua irmã.
Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume
e Lhe tinha enxugado os pés com os cabelos.
Era seu irmão Lázaro, que estava doente.
As irmãs mandaram então dizer a Jesus:
«Senhor, o teu amigo está doente».
Ouvindo isto, Jesus disse:
«Essa doença não é mortal,

mas é para a glória de Deus,

para que por ela seja glorificado o Filho do homem».
Jesus era amigo de Marta, de sua irmã e de Lazaro.

Entretanto, depois de ouvir dizer que ele estava doente,
ficou ainda dois dias no local onde Se encontrava.
Depois disse aos discípulos:
«Vamos de novo para a Judeia».
Os discípulos disseram-Lhe:
«Mestre, ainda há pouco os judeus procuravam apedrejar-Te,

e voltas para lá?».
Jesus respondeu:
«Não são doze as horas do dia?
Se alguém andar de dia, não tropeça,
porque vê a luz deste mundo.
Mas, se andar de noite, tropeça,
porque não tem luz consigo».
Dito isto, acrescentou:
«O nosso amigo Lázaro dorme, mas Eu vou despertá-lo».

Disseram então os discípulos:
«Senhor, se dorme, estará salvo».
Jesus referia-se à morte de Lázaro,
mas eles entenderam que falava do sono natural.
Disse-lhes então Jesus abertamente:

«Lázaro morreu;
por vossa causa, alegro-Me de não ter estado lá,
para que acrediteis.
Mas vamos ter com ele».
Tomé, chamado Dídimo, disse aos companheiros:
«Vamos nós também, para morrermos com Ele».
Ao chegar, Jesus encontrou o amigo sepultado havia quatro dias.

Betânia distava de Jerusalém cerca de três quilómetros.
Muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria,
para lhes apresentar condolências pela morte do irmão.

Quando ouviu dizer que Jesus estava a chegar,
Marta saiu ao seu encontro,
enquanto Maria ficou sentada em casa.
Marta disse a Jesus:
«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido.
Mas sei que, mesmo agora, tudo o que pedires a Deus,
Deus To concederá».
Disse-lhe Jesus:

«Teu irmão ressuscitará».
Marta respondeu:
«Eu sei que há-de ressuscitar na ressurreição do último dia».

Disse-lhe Jesus:
«Eu sou a ressurreição e a vida.
Quem acredita em Mim,
ainda que tenha morrido, viverá;
e todo aquele que vive e acredita em Mim nunca morrerá.

Acreditas nisto?».
Disse-Lhe Marta:
«Acredito, Senhor, que Tu és o Messias, o Filho de Deus,
que havia de vir ao mundo».
Dito isto, retirou-se e foi chamar Maria,
a quem disse em segredo:
«O Mestre está ali e manda-te chamar».
Logo que ouviu isto, Maria levantou-se e foi ter com Jesus.

Jesus ainda não tinha chegado à aldeia,
mas estava no lugar em que Marta viera ao seu encontro.

Então os judeus que estavam com Maria em casa
para lhe apresentar condolências,

ao verem-na levantar-se e sair rapidamente,
seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para chorar.

Quando chegou aonde estava Jesus,
Maria, logo que O viu, caiu-Lhe aos pés e disse-Lhe:

«Senhor, se tivesses estado aqui,
meu irmão não teria morrido».
Jesus, ao vê-la chorar,
e vendo chorar também os judeus que vinham com ela,

comoveu-Se profundamente e perturbou-Se.
Depois perguntou: «Onde o pusestes?».
Responderam-Lhe: «Vem ver, Senhor».
E Jesus chorou.
Diziam então os judeus:
«Vede como era seu amigo».
Mas alguns deles observaram:
«Então Ele, que abriu os olhos ao cego,
não podia também ter feito que este homem não morresse?».

Entretanto, Jesus, intimamente comovido, chegou ao túmulo.

Era uma gruta, com uma pedra posta à entrada.
Disse Jesus: «Tirai a pedra».
Respondeu Marta, irmã do morto:
«Já cheira mal, Senhor, pois morreu há quatro dias».
Disse Jesus:
«Eu não te disse que, se acreditasses,
verias a glória de Deus?».
Tiraram então a pedra.
Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse:
«Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido.
Eu bem sei que sempre Me ouves,
mas falei assim por causa da multidão que nos cerca,
para acreditarem que Tu Me enviaste».
Dito isto, bradou com voz forte:
«Lázaro, sai para fora».
O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras
e o rosto envolvido num sudário.
Disse-lhes Jesus:
«Desligai-o e deixai-o ir».

Então muitos judeus, que tinham ido visitar Maria,

ao verem o que Jesus fizera, acreditaram n’Ele.

 

Assim que a luz dobrar a esquina, há outra visão de tudo. E a luz dobrou a esquina do segundo para o quarto dia. Aí na dobra, acontece o terceiro dia. Talvez mais importante de tudo seja o terceiro dia. Nesse não temos notícias. Ninguém viu o dobrar, o enlaçar para engraçar a vida dos desgraçados ossos, secos e ressequidos, amontoados, indiferenciados. Agora que estamos no quarto dia, apenas conseguimos falar de como era o segundo. Estranha visão do segundo, bem engraçada.

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Quaresma III

Jo 9,1-41

Naquele tempo,
Jesus encontrou no seu caminho um cego de nascença.
Os discípulos perguntaram-Lhe:
«Mestre, quem é que pecou para ele nascer cego?
Ele ou os seus pais?».
Jesus respondeu-lhes:
«Isso não tem nada que ver com os pecados dele ou dos pais;

mas aconteceu assim
para se manifestarem nele as obras de Deus.
É preciso trabalhar, enquanto é dia,

nas obras d’Aquele que Me enviou.

Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar.

Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Dito isto, cuspiu em terra,
fez com a saliva um pouco de lodo e ungiu os olhos do cego.

Depois disse-lhe:
«Vai lavar-te à piscina de Siloé»;

Siloé quer dizer «Enviado».

Ele foi, lavou-se e ficou a ver.
Entretanto, perguntavam os vizinhos
e os que antes o viam a mendigar:
«Não é este o que costumava estar sentado a pedir esmola?».

Uns diziam: «É ele».
Outros afirmavam: «Não é. É parecido com ele».
Mas ele próprio dizia: «Sou eu».
Perguntaram-lhe então:
«Como foi que se abriram os teus olhos?».
Ele respondeu:
«Esse homem, que se chama Jesus, fez um pouco de lodo, ungiu-me os olhos e disse-me:
‘Vai lavar-te à piscina de Siloé’.
Eu fui, lavei-me e comecei a ver».
Perguntaram-lhe ainda: «Onde está Ele?».
O homem respondeu: «Não sei».
Levaram aos fariseus o que tinha sido cego.
Era sábado esse dia em que Jesus fizera lodo
e lhe tinha aberto os olhos.
Por isso, os fariseus perguntaram ao homem
como tinha recuperado a vista.
Ele declarou-lhes: «Jesus pôs-me lodo nos olhos;
depois fui lavar-me e agora vejo».
Diziam alguns dos fariseus:
«Esse homem não vem de Deus, porque não guarda o sábado».

Outros observavam:
«Como pode um pecador fazer tais milagres?».
E havia desacordo entre eles.
Perguntaram então novamente ao cego:
«Tu que dizes d’Aquele que te deu a vista?».
O homem respondeu: «É um profeta».
Os judeus não quiseram acreditar
que ele tinha sido cego e começara a ver.

Chamaram então os pais dele e perguntaram-lhes:

«É este o vosso filho? É verdade que nasceu cego?

Como é que ele agora vê?».
Os pais responderam:

«Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego;

mas não sabemos com é que ele agora vê
nem sabemos quem lhe abriu os olhos.
Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».

Foi por medo que eles deram esta resposta,

porque os judeus tinham decidido expulsar da sinagoga

quem reconhecesse que Jesus era o Messias.
Por isso é que disseram:
«Ele já tem idade para responder; perguntai-lho vós».

Os judeus chamaram outra vez o que tinha sido cego

e disseram-lhe: «Dá glória a Deus.
Nós sabemos que esse homem é pecador».
Ele respondeu: «Se é pecador, não sei.
O que sei é que eu era cego e agora vejo».
Perguntaram-lhe então:
«Que te fez Ele? Como te abriu os olhos?».
O homem replicou:
«Já vos disse e não destes ouvidos.
Porque desejais ouvi-lo novamente?
Também quereis fazer-vos seus discípulos?».
Então insultaram-no e disseram-lhe:
«Tu é que és seu discípulo;

nós somos discípulos de Moisés.

Nós sabemos que Deus falou a Moisés;
mas este, nem sabemos de onde é».
O homem respondeu-lhes:
«Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é,
mas a verdade é que Ele me deu a vista.
Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores,
mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade.
Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos
a um cego de nascença.
Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Replicaram-lhe então eles:
«Tu nasceste inteiramente em pecado e pretendes ensinar-nos?».

E expulsaram-no.
Jesus soube que o tinham expulsado
e, encontrando-o, disse-lhe:
«Tu acreditas no Filho do homem?».
Ele respondeu-Lhe:
«Quem é, Senhor, para que eu acredite n’Ele?».

Disse-lhe Jesus:
«Já O viste: é quem está a falar contigo».
O homem prostrou-se diante de Jesus e exclamou:

«Eu creio, Senhor».
Então Jesus disse:
«Eu vim a este mundo para exercer um juízo:
os que não vêem ficarão a ver;
os que vêem ficarão cegos».
Alguns fariseus que estavam com Ele, ouvindo isto, perguntaram-Lhe:
«Nós também somos cegos?».
Respondeu-lhes Jesus:
«Se fôsseis cegos, não teríeis pecado.
Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’,
o vosso pecado permanece».

 

Como se a luz dobrasse esquinas. Esquinas humanas. Talvez cada um de nós precise de dobrar essas esquinas que nos deixam cegos. Não conseguimos ver o que está para lá da esquina, apenas vemos a partir de cá e tão estranho é ver que todos aqueles que dizem ver, deixarem de conseguir ver. Os vizinhos, os pais e os entendidos… não mais conseguiram ver como a luz dobrou a esquina dos preconceitos ou das discriminações e o cego sendo ele deixou de ser. Estranho este dobrar da luz que nos ajuda a ver o de cá a partir de lá. Talvez de outra forma, quando a luz dobra a esquina, ilumina de lá para cá e vemos o essencial, a glória de Deus. A glória de Deus é o homem vivente. Quando deixamos de ver a luz que dobrou a esquina, ficamos na noite, a noite do “eu” centrado em si. Nada mais se vê, nem que já não se vê.

Quaresma II

Jo 4, 5-42

 

Naquele tempo,
chegou Jesus a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, junto da propriedade que Jacob tinha dado a seu filho José,

onde estava o poço de Jacob.
Jesus, cansado da caminhada, sentou-Se à beira do poço.

Era por volta do meio-dia.
Veio uma mulher da Samaria para tirar água.
Disse-lhe Jesus: «Dá-Me de beber».
Os discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.

Respondeu-Lhe a samaritana:
«Como é que Tu, sendo judeu,
me pedes de beber, sendo eu samaritana?».
De facto, os judeus não se dão com os samaritanos.

Disse-lhe Jesus:
«Se conhecesses o dom de Deus
e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’,
tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva».

Respondeu-Lhe a mulher:
«Senhor, Tu nem sequer tens um balde, e o poço é fundo:

donde Te vem a água viva?
Serás Tu maior do que o nosso pai Jacob,
que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu,
com os seus filhos e os seus rebanhos?».

Disse-Lhe Jesus:
«Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.
Mas aquele que beber da água que Eu lhe der
nunca mais terá sede:
a água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma nascente
que jorra para a vida eterna».
«Senhor, – suplicou a mulher – dá-me dessa água,
para que eu não sinta mais sede
e não tenha de vir aqui buscá-la».
Disse-lhe Jesus:
«Vai chamar o teu marido e volta aqui».
Respondeu-lhe a mulher:

«Não tenho marido».
Jesus replicou:
«Disseste bem que não tens marido,
pois tiveste cinco,
e aquele que tens agora não é teu marido.
Neste ponto falaste verdade».
Disse-lhe a mulher:
«Senhor, vejo que és profeta.
Os nossos antepassados adoraram neste monte,
e vos dizeis que é em Jerusalém que se deve adorar».

Disse-lhe Jesus:
«Mulher, acredita em Mim:
Vai chegar a hora
em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai.

Vós adorais o que não conheceis;
nós adoramos o que conhecemos,
porque a salvação vem dos Judeus.
Mas vai chegar a hora – e já́ chegou –
em que os verdadeiros adoradores
hão-de adorar o Pai em espírito e verdade,
pois são esses os adoradores que o Pai deseja.
Deus é espírito,
e os seus adoradores devem adorá-l’O em espírito e verdade».

Disse-Lhe a mulher:
«Eu sei que há-de vir o Messias,
isto é, Aquele que chamam Cristo.

Quando vier, há-de anunciar-nos todas as coisas».

Respondeu-lhe Jesus:
«Sou Eu, que estou a falar contigo».
Nisto, chegaram os discípulos
e ficaram admirados por Ele estar a falar com aquela mulher,

mas nenhum deles Lhe perguntou:
«Que pretendes?», ou então: «Porque falas com ela?».
A mulher deixou a bilha, correu à cidade e falou a todos:

«Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz.
Não será Ele o Messias?».
Eles saíram da cidade e vieram ter com Jesus.
Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo:
«Mestre, come».
Mas Ele respondeu-lhes:
«Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis».

Os discípulos perguntavam uns aos outros:
«Porventura alguém Lhe trouxe de comer?».
Disse-lhes Jesus:
«O meu alimento é fazer a vontade d’Aquele

que Me enviou
e realizar a sua obra.
Não dizeis vós que dentro de quatro meses
chegará o tempo da colheita?
Pois bem, Eu digo-vos:
Erguei os olhos e vede os campos,
que já estão loiros para a ceifa.
Já́ o ceifeiro recebe o salário
e recolhe o fruto para a vida eterna
e, deste modo, se alegra o semeador juntamente com o ceifeiro.

Nisto se verifica o ditado:
‘Um é o que semeia e outro o que ceifa’.
Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes.
Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».

Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus,
por causa da palavra da mulher, que testemunhava:
«Ele disse-me tudo o que eu fiz».
Por isso os samaritanos, quando vieram ao encontro de Jesus,

pediram-Lhe que ficasse com eles.
E ficou lá́ dois dias.

Ao ouvi-l’O, muitos acreditaram e diziam à mulher:

«Já́ não é por causa das tuas palavras que acreditamos.

Nós próprios ouvimos
e sabemos que Ele é realmente o Salvador do mundo».

 

Palavra da salvação.

Talvez seja fácil imaginar a Samaritana desejosa de beber da água viva que Jesus traz a toda a humanidade. Difícil e complicado talvez seja pensar num Jesus cansado (Deus cansado de nos procurar) e que se senta junto ao poço de Jacob para saciar a sua sede (sente-se para saciar a sua sede de amar a humanidade). Pois, bem mais difícil será pensar que Deus tem sede de humanidade e, ali, junto ao poço de Jacob, saciou a sua sede de amar a humanidade no belíssimo diálogo com pecadora Samaritana. Agora um pouco de loucura, Deus ao beber da nossa humanidade sacia a Sua sede de amar. Ao beber os pecados da Samaritana amou ainda muito mais. Talvez a Quaresma seja isto mesmo, entregar os nossos pecados para que Deus beba a nossa humanidade e aumente o Seu amor.

Quaresma II

Mt 17, 1-9

Naquele tempo,
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão,
e levou-os, em particular, a um alto monte
e transfigurou-Se (metemorphwthe = transformação última da forma) diante deles:
o seu rosto (proswpon = rosto, pessoa) ficou resplandecente como o sol,
e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus:
«Senhor, como é bom (Kalón = belo, bom) estarmos aqui!
Se quiseres, farei aqui três tendas:
uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava,
quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra,
e da nuvem uma voz dizia:
«Este é o meu Filho muito amado,
no qual pus toda a minha complacência.
Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras,
os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.

Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse:
«Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.

Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem:
«Não conteis a ninguém esta visão,
até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

Mais uma vez não abordemos a questão de forma direta. Apenas um convite a ler este texto a partir do erguer dos olhos, como os discípulos o fizeram no monte Tabor. Quando levantaram os olhos não viram mais ninguém a não ser eles e o Senhor. É isso mesmo a transfiguração, ver-se a si e ver-se no Senhor. Este também é o caminho que cada um de nós está chamado a realizar, a transfiguração que o Senhor deseja realizar em cada um. O caminho quaresmal até à Páscoa só tem este sentido, sê tu. Numa imensa liberdade, que implica a libertação de tudo o que não nos deixa ser livres, que não permite a responsabilidade sobre cada um dos nossos dias. Um fazer-se cada vez mais responsável até ser uma bênção para os outros. Ser responsável passa por responder. É que não há nada que nos leve mais longe, que no transfigure, do que o amor. Quaresma, um êxodo no amor, com amor, para o amor (para a Páscoa).

 

Quaresma I

Mt 4, 1-11

Naquele tempo,

Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto,

a fim de ser tentado pelo Diabo.

Jejuou quarenta dias e quarenta noites

e, por fim, teve fome.

O tentador aproximou-se e disse-lhe:

«Se és Filho de Deus,

diz a estas pedras que se transformem em pães».

Jesus respondeu-lhe:

«Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem,

mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’».

Então o Diabo conduziu-O à cidade santa,

levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe:

«Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito:

‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos,

para que não tropeces em alguma pedra’».

Respondeu-lhe Jesus:

«Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’».

De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto,

mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória

e disse-Lhe:

«Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares».

Respondeu-lhe Jesus:

«Vai-te, Satanás, porque está escrito:

‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».

Então o Diabo deixou-O,

e aproximaram-se os Anjos e serviram-n’O.

 

Hoje não falamos das tentações, mas do milagre da liberdade. Nossa é uma liberdade acidentada sujeita ao pecado, tomada pela nossa debilidade e fragilidade, por isso tantas vezes assaltada. É verdade a grande luta não se trava contra as tentações em si, mas em permanecer livres. Jesus é tentado e aqui se joga toda a liberdade. Este é o maior milagre narrado na Bíblia, alguém que permanece livre até ao fim, porque não entrega a sua liberdade em troca da satisfação da tempestade de desejos nem se faz poderoso a todo custo, possuindo os outros ou deixando-se tomar pela pretensão de ser um deus. A liberdade acidentada é a possibilidade de fuga à verdade da nossa fragilidade. Jesus vence as tentações porque sabe desta vulnerabilidade, logo permanece na humildade de se firmar em Deus para responder a cada tentação e não em si.

Comum VIII

Mt 6,24-34

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:

«Ninguém pode servir a dois senhores,

porque ou há-de odiar um e amar (‘agapesei = amar gratuitamente) o outro,

ou se dedicará a um e desprezará o outro.

Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro (mamwnã = dinheiro, deus do dinheiro).

Por isso vos digo:
«Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer,

nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir.

Não é a vida mais do que o alimento
e o corpo mais do que o vestuário?
Olhai para as aves do céu:

não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros;

o vosso Pai celeste as sustenta.
Não valeis vós muito mais do que elas?
Quem de entre vós, por mais que se preocupe,

pode acrescentar um só côvado à sua estatura?

E porque vos inquietais com o vestuário?

Olhai como crescem os lírios do campo:
não trabalham nem fiam;

mas Eu vos digo:
nem Salomão, em toda a sua glória,
se vestiu como um deles.
Se Deus assim veste a erva do campo,
que hoje existe e amanhã é lançada ao forno,
não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
Não vos inquieteis, dizendo:
‘Que havemos de comer? Que havemos de beber?
Que havemos de vestir?’.
Os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas.

Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso.

Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça,
e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã,

porque o dia de amanhã tratará das suas inquietações.
A cada dia basta o seu cuidado».

A nossa confiança será só num e só naquele que em nós confia, ao ponto de se abandonar em nós. Então olhemos as aves do céu, mas principalmente todo o céu que Deus deu às aves para elas voarem. E a nós? Claro, todo o universo, apenas ainda não somos capazes de ir tão longe. Voltemos o olhar para as flores do campo, mas principalmente para toda a terra em que Deus as plantou. E a nós? Apenas isso, fez da nossa carne a terra onde se semeou para nos salvar. O dinheiro escraviza-nos enquanto Deus abandona-se a nós. então podemos trabalhar no Reino dos Céus sem medo, porque o Senhor estará sempre connosco.

Comum VII

Mt 5, 38-48

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Ouvistes que foi dito aos antigos:
‘Olho por olho e dente por dente’.
Eu, porém, digo-vos:
Não resistais ao homem mau.
Mas se alguém te bater na face direita,
oferece-lhe também a esquerda.
Se alguém quiser levar-te ao tribunal,
para ficar com a tua túnica,
deixa-lhe também o manto.
Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha,

acompanha-o durante duas.
Dá a quem te pedir
e não voltes as costas a quem te pede emprestado.

Ouvistes que foi dito:
‘Amarás (‘agappepseis = amarás) o teu próximo e odiarás o teu inimigo’.
Eu, porém, digo-vos:
Amai os vossos inimigos
e orai por aqueles que vos perseguem,
para serdes filhos do vosso Pai que está nos Céus;
pois Ele faz nascer o sol sobre bons e maus
e chover sobre justos e injustos.
Se amardes aqueles que vos amam, que recompensa tereis?

Não fazem a mesma coisa os publicanos?
E se saudardes apenas os vossos irmãos,
que fazeis de extraordinário?
Não o fazem também os pagãos?
Portanto, sede perfeitos (τελειοι = perfeito, realizados, completo, sem nódoa, madura ou que realiza),
como o vosso Pai celeste é perfeito».

 

Apenas isso: ama. Porque se amares terá a capacidade de realizar coisas maiores, imensas, maiores do que tu, porque o amor não é teu, é te dado e é dado por alguém bem mais perfeito, porque é amor.

Apenas isso: ama. Assim realizarás o que estás chamado a ser e serás o que és, porque é dom de amor de Deus. Ele deu-te a ti mesmo para que sejas tu e amando sejas como Ele.

Comum V

Mt 5, 13-16

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Vós sois o sal da terra.
Mas se ele perder a força, com que há-de salgar-se?
Não serve para nada,
senão para ser lançado fora e pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo.
Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte;
nem se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro,
onde brilha para todos os que estão em casa.
Assim deve brilhar a vossa luz diante dos homens,
para que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai que está nos Céus».

 

Há um novo acontecer no mundo de todo aquele que entra na vivência das bem‑aventuranças. Há uma felicidade imensa para quem vive este novo acontecer, porque nele acontece a recriação. O mundo foi criado no amor, pelo amor e com amor e ser recriado é deixar que agora este amor nos purifique de tudo que ainda não é amor e nos conserve no amor, para que tudo na nossa vida tenha o sabor do amor primordial. Só assim seremos luz do mundo, não porque temos a luz em nós próprios, mas porque o amor trespassa todo o nosso ser para iluminar a vida dos nossos irmãos. Só assim é que encontrarão a luz.

Comum IV

Mt 5, 1-12a

Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.                                               Rodearam-n’O os discípulos e Ele começou a ensiná-los Stóma aútou ‘edidasken aútoùs légw (abrindo a boca, ensinava-os dizendo), dizendo:

«Bem-aventurados (makárioi = felizes) os pobres em espírito (ptwchoi tw pneúmati (pobre de espírito),

Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,                                     porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».

Não sei se alguém acredita verdadeiramente na possibilidade da felicidade, mesmo quando todos a perseguem. A felicidade será possível? Haverá caminho, doutrina ou filosofia? Uma utopia que escreve imensos desastres na vida das pessoas? Talvez fosse bom parar um pouco para deixar ecoar dentro de nós este refrão: bem-aventurado (felizes); sentir como o coração vibra para depois escutar a única resposta que o coração humano não consegue inventar ou raciocinar, mesmo não sendo irracional. Felizes, sim, o pobre… o humilde… e tantos outros que não vivem de si, mas daquele que viveu verdadeiramente para todos. Feliz na não felicidade, não por loucura, mas loucamente vivendo para a felicidade de cada um.

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Comum III

Mt 4, 12-23

Quando Jesus ouviu dizer
que João Baptista fora preso,
retirou-Se para a Galileia.
Deixou Nazaré e foi habitar em Cafarnaum,
terra à beira-mar, no território de Zabulão e Neftali.
Assim se cumpria o que o profeta Isaías anunciara, ao dizer:

«Terra de Zabulão e terra de Neftali,
caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios:
o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz;
para aqueles que habitavam na sombria região da morte,

uma luz se levantou».
Desde então, Jesus começou a pregar:
«Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus».

Caminhando ao longo do mar da Galileia,
viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André́,
que lançavam as redes ao mar, pois eram pescadores.

Disse-lhes Jesus: «Vinde e segui-Me,

e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante, viu outros dois irmãos:
Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco, na companhia de seu pai Zebedeu,

a consertar as redes.
Jesus chamou-os,
e eles, deixando o barco e o pai, seguiram-n’O.
Depois começou a percorrer toda a Galileia,
ensinando nas sinagogas,
Proclamando o Evangelho do reino e curando (therpeuwn = terapia, cura) todas as doenças (Nosós = estar enfermo, estar louco, sofrimento moral, paixão, defeito, vício)

E enfermidades (malakían = debilidade, frouxidão, falta de energia, enfermidade) entre o povo.

Há um chamamento e todo ele é um caminho de luz para o coração. A voz que chama rompe com as nossas trevas e abre o coração. O chamamento é para a conversão do coração, para que deixe de ser habitado por todo o espírito de divisão ou que aprisiona nas obsessões para a liberdade de fazer caminho para o reino da proximidade de Deus. Uma conversão feita de uma resposta, a comunhão num caminho comunitário. Que luz é esta? Só pode ser do Espírito que ateia o fogo do amor.

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